Saturday, January 26, 2008

Desabafo tardio

Semana passada comecei um post pra responder algumas questoes que recebi nos ultimos...3 ou 4 meses... Pouco atrasada, né? Comecei a responder o mais organizadamente que podia, até que a Cris (minha amiga do coeur) me chamou no MSN. Ai eu fiquei falando com ela e tentando escrever ao mesmo tempo. Nao deu, obvio, e ainda por cima apaguei sei la como, tudo que e tinha escrito. Baita anta! Bom, recomeço hoje, mas so vai dar tempo pra responder pro Rodrigo Mergulhao, que me pediu pra falar da metodologia de ensino na francisaçao.
Em primeiro lugar quero lhe agradecer por me considerar uma pessoa 'cabeça' (tomei como elogoi, viu?heheheh). Embora nao acho que eu seja (de jeito nenhum...hhhiiii) foi muito querido, valeu. Como o Rodrigo disse estar lendo os outros posts, nao tive muita certeza do quanto eu teria ou nao escrito exaustivamente sobre a minha experiência de francisaçao. O caso é que agora, o Rodrigo alertou os gansos, atiçou as lombrigas, e me deu comichao de escrever (talvez de novo) sobre o bendito curso de francês que o MICC oferece. Talvez, eu nao responda a pergunta dele muito bem, mas...vamos ver.
1) Pro meu gosto esse curso nada mais é do que um 'teste de resistência' pro recém-chegado. Se tu conseguir fazer todo o curso sem bater em ninguém, sem desenvolver sintomas depressivos profundos e...sobretudo, sem te suicidar...tu ta pronto pra vida de imigrante. Exageros a parte, até agora nao entendi a moral. Pelo que sei os professores sao super bem pagos, tem uma fila enorme de gente querendo dar aula pro ministério, as instalaçoes em geral sao otimas (as nossas aqui no Colégio Montmorency sao super legais), enfim...nao entendo por que tem que ser TAO ruim. Claro...claro... essa é a minha humilde opiniao de pessoa exigente e mala. Na blogosfera ta cheio de gente que teve mais sorte que eu e diz que ficou em grupos maravilhosos, que adorou, etc e tal. Sei la. Talvez nos blogs destas pessoas o Rodrigo possa achar uma resposta mais objetiva e clara pra pergunta dele. Aqui...provavelmente ele vai ler muito mais um desabafo com a esperança que alguém em contato ministério da imigraçao leia e leve adiante (doce ilusao...hehehehe). Preciso apenas dizer que so fiz dois niveis da francisaçao: o ultimo do oral (nivel 3) e o escrito.
2) A metodologia é classica pra cursos de lingua... Aulas de gramatica com uma apostila até que boazinha, alguns exercicios...normal. Aulas de conversaçao, patéticas. Explico: na mesma turma de nivel 3 tem gente capaz de conversar meia-boca (tipo se fazer entender) e gente incapaz de ler uma frase no livro. Nao é brincadeira. Na hora da conversaçao os profes queridos misturam quem sabe um pouco mais com quem nao sabe p..nenhuma. É 'otimo'! Entendo que se eles colocarem so quem nao sabe juntos , nao vai sair absolutamente nada...mas da um tempo! Sabe aquela coisa do aviao: deixa eu colocar a minha mascara de oxigênio primeiro pra depois te ajudar a colocar a tua? Pois é...eles nunca devem ter ouvido isso. Acho a solidariedade uma beleza, mas quando a gente ta podendo ser solidario. Quando tu mesmo precisa exercitar teu francês (questao de sobrevivência), precisa aprender, ta te esguelando de estudar e tal...ter que ficar aguentando imigrante deprimido, preguiçoso, gente que nao faz nenhum esforço e so ta la por causa da bolsinha mirrada que eles dao...É DEMAIS PRO SACO DO CIDADAO!!!! Deu pra ver que mesmo falar nisso me irrita? heheheheh Claro que nao sao todas as pessoas que têm dificuldade que sao preguiçosas e mal intencionadas...de jeito nehum. mas tem uma parte que é sim. E que ficam la, sessao apos sessao, sem melhorar em nada a merda do francês deles e ainda fazendo os outros que tem mais objetivos e planos, perder seu precisoso tempo. Mas ufff! Voltando a metodologia. Eles tentam fazer a gente entender um pouquinho da historia do QC, fazemos algumas visitinhas (geralmente a cabane a sucre), e sobretudo parecem preocupados que a gente entenda a forma de falar dos québécois. Isso deve ser por causa das pessoas que acham muito dificil o sotaque quebecois, as girias e tal. Mas sinceramente, pra mim, o unico jeito de se adaptar é ouvindo o mais frequentemente possivel o francês deles. Va ouvir TV, radio, falar com as pessoas, pergunte...te mete. Até é um pouquinho util, a forma como eles exlicam no curso, mas é quase nada. O que me irrita mais é aquela classe de imigrante que mal estudou sua lingua materna, tem um nivelzinho basico 3 ou 4 quando chega aqui e sai por ai falando que 'nao entende o francês dos québécois', que 'como é feio' e tal. Ah, so um pouquinho! O que tu nao entende, querido, é a lingua francesa ponto. Para de ficar colocando a culpa nos québécois e te liga pra entender. Quando eu vou pro serao do nordeste, onde minha mae nasceu, as vezes também tenho dificuldade de entender o português deles, e nem por isso saio por ai dizendo que 'aquilo nao é português'. Se o português pode ter mil caras, por que nao o francês? Bom...mas continuando na meto (ta dificir...heheh). A parte que eu mais odiei (e que teve nos dois cursos que eu fiz) foi a tal de preparaçao para o emprego. É uma real piada, e o pior é que ocupou a maior parte das atividades extra-gramatica dos cursos. Como fazer seu CV, o que escrever na sua carta de apresentaçao, como se comportar numa entrevista...arhg! Nada contra e tenho que admitir que possa ser até bem util pra algumas pessoas. O que eu acho o fim da picada é que isso aconteça no curso de fran-ci-sa-çao!!! Existem um monte de escritorios financiados pelo governo pra ajudar os importados a procurar emprego depois. Tem um monte de sites que dizem como fazer um CV ou uma carta. As criaturas estao ali pra aprender FRANCES, que por meu gosto tem muito mais a ver com exercicios interessantes, correçao da pronunciaçao, leituras, vocabulario e tal. É patético (hoje eu tô usando muito este termo) ver aquelas pessoas que mal sao capazes de comprar um café na lancheria, tentando se preparar pra uma entrevista de emprego.
3) Os professores que tive sao outra pérola.... Quando chegamos fizemos um cursinho num centro comunitario, nao era o oferecido pelo MICC. A professora, Sylvie, era uma québécoise barbara, hiper-aberta, divertida. As aulas eram mais ou menos a mesma coisa, com a diferença que a gente falava muito mais, lia muito mais. Ela pegava aqueles jornaizinhos gratis do metro e fazia a gente ler e discutir as nouvelles. Nada de complicado. Um jornal, uma sala simples e uma professora. Tudo de bom! Aprendi demais com ela. Agora os profes que eu tive no MICC...franchement! Primeiro um cara que era tao monotono, tao monotono, que nao dormir ja era o grande desafio. Além disso era mala. Além disso era incompetente, no fim eu nao acreditava em mais nada que ele dizia. Na verdade, nao acreditei mais depois que ele declarou solenemente que a palavra 'legume' em francês é um substantivo feminino. Voyons donc! Ah...ele era imigrante também...e daqueles bem desenchavidos que nao estava trabalhando no que mais queria e tipo...achava que o QC nao reconhecia suas 'qualidades e talentos'. Bom...em todo caso...eu também nao. A professora do francês escrito era melhorzinha. também imigrante so que chegou aqui muito criança, mas mesmo assim mantinha aquela coisinha 'ninguém me ama, ninguém me quer'. O grupo também era um pouco melhor, pelo menos a gente podia conversar em francês. Agora, pra mim ela acabou quando perguntou como era a relaçao que a gente tinha com os québécois. Eu falei que até aquele momento era boa (fazia 4 meses que eu tava aqui), que eles eram gentis e tal. Ai ela concordou mas disse que a gente nao fizesse ilusoes, por que os quebecois nunca iam nos convidar pra jantar na casa deles. WHAT??? Pois ela falou. Falou isso pra um grupo de imigrantes, na maior parte recem-chegados. Tem sentido? Depois ficou falando que eles tem preconceito e mais essa, mais aquela. Eu que nao me encaixo no perfil cucaratcho arrependido, quase me esganei.
Finalmente, o que eu quero dizer é que nao sou contra a francisao oferta pelo governo. De jeito nenhum. Atualmente tem um grande debate acontecendo sobre o francês no QC, ja que algumas pessoas dizem que ele esta desaparecendo. Isso foi um resultado de uma pesquisa que eles fizeram em Montréal onde descobriram que pra achar emprego no centre-ville basta saber inglês. Claro que os azuis pularam de suas cadeiras e com razao. Agora os partidos politicos estao debatendo sobre o que deve ser feito para reverter essa situaçao. Pro meu gosto, o formato da francisaçao nao é tanto o problema. O problema é que quem coloca em pratica nao é bem selecionado, muito menos acompanhado, muito menos treinado, e como a gente sabe o professor é um elemento essencial para a aprendizagem. É brabo aprender a gostar de francês com um professor desmotivado ou infeliz. É brabo! Os professores que eu tive no MICC nao estavam muito ai pro progresso dos alunos. Isso eu acho triste. Claro que nao é a unica razao do aparente 'desaparecimento' do francês. Mas talvez conte. Pensa bem. A criatura passa quase um ano (pra quem faz desde o inicio) aprendendo uma lingua e nao aprende. A criatura se vira meia-boca em inglês indigena. O que tu acha que ela vai fazer na vida real? Obvio que vai se virar em ingês forever. O que é uma pena por que, no meu ponto de vista, nao falar francês aqui restringe bastante a tua vida pessoal e social. Mas isso é outro post. Minha magoa maior é ver o meu pais, os impostos deste povo, sendo usados pra financiar um programa que tem tudo pra ser o maximo e que nao é, por puro erro de logistica e competência de quem mete em pratica. Falei.

3 Comments:

Blogger Sandra e Evaldo Vicente said...

Mylene,
acho que aqui na cidade de québec é diferente... hehehe
mas é sério. nossa experiência foi bem diferente com uma profe québecois e apaixonadíssima pelo que faz há 20 anos. além de cultura, história, francês, criatividade, víamos uma pessoa apaixonada pelo que faz. Isso talvez tenha sido a grande diferença. Outra coisa, talvez seja o fato de que aqui é francês 100% do tempo.

9:15 PM  
Blogger Ale & Dani said...

Mylène,

Tô sempre por aqui, mas agora eu teeenho que falar...meu....vc tirou as palavras da minha boca quando falou sobre os imigrantes preguiçosos . Tenho um colega na minha classe atual que simplesmente nos deixou NA MÃO no dia da apresentação de um trabalho em grupo apenas dizendo "não estou preparado para apresentar". Aquele cara tipo clássico...só não está dormindo quando está fazendo piadinhas e entretendo a classe, tipo um palhação mesmo. Não faço a menor idéia (nem ele, imagino) do que está fazendo lá, pois acho que nem pela grana é, pois ele e a esposa trabalham. Mas, por outro lado, FELIZMENTE eu tive duas profes realmente excelentes, a Sylvie (a mesma tua) no Loisirs Bon Pasteur e a Linda, no nível 2. Claramente apaixonadas pelo que fazem. O meu, atualmente, é um banana. Quase 3 meses perdidos. Paciência.
Um bjo pra vc
Dani

10:42 PM  
Blogger Canadá A4 said...

Essa estória da francisação é realmente conflitante. ë tanta coisa que a gente escuta que eu até ando perguntando para o pessoal o que devemos fazer para complementar estas aulas que vamos frequantar. Fico feliz em ver a Sandra falar sobre a francisação em Ville de Quebec, pois é para lá que vamos quando nos mudarmos, e o francês me deixa preocupada... sem francês fluente acho a real integração cultural impossível.
belo post!
Camila

5:15 PM  

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